ABD/RJ: Instrução Normativa Classificação de Nível – ANCINE

Ao analisar a IN que “Estabelece critérios para a classificação de nível de empresa produtora brasileira independente, para fins de captação de recursos por meio de fomento indireto, e dá outras providências.”, em consulta pública até 08/02, encontramos alguns pontos a serem ajustados e algumas dúvidas que merecem esclarecimento, antes da IN ser colocada em vigor.

A intenção da ABD RJ Audiovisual Independente é colaborar para que entre em vigor a melhor IN possível, respeitando-se a importância de todos os atores e formatos.

Continua…

André Gatti: filme não exibido, é obra morta

Por André Gatti, Professor da FAAP

Vou comentar o texto distribuidor Bruno Wainer, que foi criador da Lumière e é proprietário da Downtown, distribuidora exclusiva de filmes brasileiros. O texto intitulado A falsa guerra do cinema brasileiro, publicado na Folha de São Paulo em 26/09/2014.

Ele fala da velha guerra entre o cinema comercial e o não comercial. Ao abrir este texto com este chavão , sou obrigado a divagar um pouco, inclusive fazendo um certo retrospecto histórico dos fatos.

O cinema e o filme enquanto objeto apresentam radical características, ele é arte e indústria, o filme é produto e artefato cultural/artístico. Isto tem que ser entendido em toda a sua extensão. Esta dualidade, entendo ser esta a riqueza do nosso objeto,

Se o cinema é arte e indústria, a partir desta dualidade temos que enxergar a questão, sob a lógica que são dois pilares quase que antagônicos entre si, mas, é dentro deste antagonismo que tem que se pensar uma política para o setor.

E quando me refiro a isto quero dizer que uma entidade que nem a nossa precisa trabalhar no sentido de harmonizar estes interesses e campos de conflito. Acho que está é uma bandeira que podemos ter como proposta de legitimidade da entidade, fora disto, é jogar a coisa num gueto, onde o estado das coisas beira o insuportável. Isto devido a uma esquizofrenia crônica que o conjunto da ópera nos trouxe. Ou seja, ao apresentarmos, o Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), como representante do cinema cultural….Qual CBC queremos? A esta questão que deveremos discutir no nosso próximo Congresso.

Na realidade, esta guerra que o Bruno Wainer comenta vem de longa data, nem sempre com as mesmas letras que estão hoje apresentadas. O primeiro organismo estatal do setor foi o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) com a sua vocação de cinema educativo, ideologicamente amparado em um decreto é uma lei, mas, principalmente no Decreto 21.240/32, que reorganizava o Ministério da Educação e Saúde. Os 13 artigos dedicados ao cinema nesta legislação foram uma conquista da Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos (ABPC), que realizou o verdadeiro primeiro Congresso do setor e que foi responsável em pautar o texto do Decreto, junto à burocracia estatal varguista que reorganizava o aparelho estatal brasileiro.

O decreto instituiu a taxa cinematográfica para a educação popular”, primeira taxa cinematográfica para fonte de recursos do INCE e que seria organizado em 1936 e que seria definitivamente implantado somente em1937. Portanto, o INCE é a base sólida do cinema cultural, por excelência, somos uma velha tradição do cinema brasileiro, onde o Estado foi o principal protagonista. Isto precisamos colocar na nossa pauta política. Esta questão não pode ser escamoteada da forma como estão sendo colocada.

O queixume sobre a distribuição apoiada na fala do Klotzel, replicado pelo Bruno Wainer, parece-me totalmente desfocado, quando Klotzel chora a perda do protagonismo para as distribuidoras e Bruno Wainer claramente aposta nisto. Acho que devemos sim criticar os excessos provocados inclusive pelo art. 3 da Lei do Audiovisual. E, que os distribuidores brasileiros conseguiram reverter com os recursos do Funcines/BNDES e do FSA/ANCINE.

O que me constrange no referido texto é que um filme comercial tem que ser distribuído em pelo menos 100 salas, o que me parece que não caracterizaria como comerciais filmes do tipo O som ao Redor, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Cine Roliudi, Bezerra de Menezes, onde tem filmes inclusive distribuídos pela Downtown.

Depois, uma distribuidora que ano passado vendeu mais de 17 milhões de ingressos e mais de 50 na sua carreira comercial, em um sistema meritocrático deveria contar com outros esquemas de incentive, como o Prêmio Adicional de Renda.

Numa economia de mercado, a distribuição é um ponto chave que não pode absolutamente ser desprezado. Os realizadores têm que achar novas maneiras de distribuição dos seus filmes. O slogan para este período é: Exiba ou morra. Numa era exponencial para a produção, o filme não exibido, é obra morta.

Fonte: http://culturadigital.br/cbcinema/filme-nao-exibido-e-obra-morta